sábado, 9 de outubro de 2010

"História Local é a Prática que Contesta"


GRUPO DE ESTUDOS – CASA DO CAPITÃO MOR
CIDADES, HISTÓRIA LOCAL, EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E OUTRAS ARTES.

“História local é a prática que contesta”
Denis Melo

            Seguem alguns pressupostos conspiratórios para as atividades do grupo de estudos Cidades, Histórica Local, Educação Patrimonial e Outras Artes, entendendo que as questões essenciais estão contidas no pequeno texto acima que norteou as discussões  na oficina de História Local, baseadas no pensamento brilhante de Pascal.
            Com relação o sentido da  teoria, esse campo minado para muitos historiadores, compartilhamos com Deleuze quando escreve que “a  própria teoria é uma pratica, tanto quanto seu objeto. Ela não é mais abstrata que seu objeto. É uma prática de conceitos, e é preciso julga-la em função de outras práticas nas quais interfere”.

  • O grupo de estudos deverá ser um espaço fundamental de pluralidade metodológica e teórica, de modo que o enfrentamento de outros saberes transversais e paralelos, presentes em textos de Virilo, Barthes, Nietzsche, Deleuze, Foucault, Saramago, Pamuk, Benjamin, Milton Santos entre outros, deverá ser feito sem cerimônia, sem peso na consciência. Ser Historiador é estar sempre aberto na medida de nossa competência e de nossa sapiência.
  • Nosso desafio é trazer a(s) cidade(s) à nossa mesa de trabalho, a nossas reflexões mais refinadas. É fazer de sua polifonia o nosso banquete de cada dia.
  • Devemos pensar como a cidade de Sobral  é narrada em seu passado, e aqui cabe uma reflexão fundamental para o historiador: o que determinada sociedade considera o seu passado?
  • Sobral, como qualquer outra cidade, cria, recria e expande suas imagens fundadoras, suas “certidões visuais”. O desafio é  querer entender como esta(s) cidade(s) reverbera sua monumentalidade, aqui no triplo sentido de lembrar suas memórias , suas imagens e edificações, bustos e símbolos.
  • Buscar a poesia de suas ruas, esquinas, becos e vielas. Alcançar sua poética cotidiana.
  • Pensar na cidade “real” e também na cidade invisível. Assim, repensar a cidade formal, organizada e ordenada pelo poder geométrico, burocrático e frio. Ir além da espacialidade oficial e buscar “as práticas estranhas”  como sugere Certeau. Assim, “balançar o chão da praça”, como sugere o poeta. “Balançar o chão da praça”  equivalerá para nós, encontrar, enxergar “as pernas das formigas”...
  •  Buscar “o traçado pictural, escritural e literário, tecido nos fios de um palimpsesto que guarda os restos mnemônicos do texto citadino”, de modo que outras cidades possam fluir para além de sua arquitetura visível. A cidade está também nas palavras e lamentos escritos nos muros da cidade, também no traço de um pintor que, expondo no Beco do Cotovelo suas telas sem perspectiva, sem estudo, guardam em suas cores e motivos, a vida e lugar de seu autor...
  • Buscar “o descentramento de lugares fixos e legitimadores do poder hegemônico” que pretende organizar e normatizar a cidade, pretendendo instituir o “lugar” de seu conceito e de sua determinação.
  • Assim, buscar também a cartografia afetiva, a morfologia utópica. Cidade e sentimentos se conjugam. Entender e discutir o projeto moderno que desde o bispado de Dom José vem embebendo a cidade de seu “doce veneno”. Nesse sentido é necessário entender suas utopias (parece-nos que Sobral será sempre a “cidade do futuro”, pronta para o devir, apta a responder todas as nossas inquietações.
  • Perceber a fluidez da ordem espacial, já que a cidade é lugar/espaço (conceitos que precisaremos discutir) da relação fixidez-movimento.
  • Nas cidades, como sugere o grande poeta Jorge Luis Borges, “o que está perto se distancia”. Como? A que distancia Sobral está  de seu passado? O que se distancia mais da cidade, o passado ou o futuro?
  • Discutir a história oficial da cidade e fazer outra coisa disso. Como sugere brilhantemente Deleuze: “fazer um filho por trás”. Portanto, o desafio é DESNATURALIZAR tudo o que nos cerca, o que cerca os documentos e monumentos que contam as histórias da cidade. Para tanto, precisamos descobrir a arte de andar pelas ruas de Sobral.
  • Buscar as epígrafes (“Sobral de Dom José”; “Sobralidade”) e os “epitáfios” (morte e ressurreição de seus grandes vultos que claramente ou sorrateiramente se esquivam no dia das práticas discursivas de agentes da cidade) as sinalizações de ruas, avenidas, prédios, praças, bustos, monumentos...
  • Buscar portas e passagens simbólicas da cidade, as “notas d rodapé”, as pequenas grafias, os pequenos traços, “fios e rastros”, as “pernas das formigas”...
  • Buscar duplamente a prática do desvio: nosso, enquanto historiadores e dos  sujeitos enquanto moradores ordinários da cidade.

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